Por Carlos Magno Silva – Radialista, graduado em Filosofia e História.
A morte de alguém próximo não chega apenas como uma notícia dura. Ela se instala devagar — no silêncio da casa, no lugar vazio à mesa, no telefone que não toca mais. É um acontecimento íntimo e, ao mesmo tempo, universal. Todos, em algum momento, somos convocados a lidar com essa ausência que reorganiza afetos, rotinas e a própria percepção do tempo.
Na psicologia, o luto é compreendido como um processo, não como um estado fixo. Pesquisas na área apontam que não existe um único modo “correto” de sofrer uma perda. As reações variam de pessoa para pessoa, podendo incluir tristeza profunda, alterações no sono, dificuldades de concentração e momentos de aparente normalidade que, muitas vezes, geram culpa em quem sofre. Estudos contemporâneos destacam que o luto saudável não significa esquecer, mas integrar a perda à história de vida do indivíduo.
Essa compreensão dialoga com a psicanálise desde o início do século XX. Sigmund Freud, ao refletir sobre o luto, observou que perder alguém amado implica um trabalho psíquico complexo: aos poucos, a energia emocional antes dirigida ao outro precisa encontrar novos caminhos. Quando esse processo é interrompido ou negado, o sofrimento tende a se intensificar e se prolongar. A dor, portanto, não é um erro — é parte do caminho de elaboração.
A experiência do luto, no entanto, não se constrói apenas no interior da mente. Ela é atravessada pela cultura, pela história e pelas formas coletivas de lidar com a morte. O historiador Philippe Ariès demonstrou que, em sociedades tradicionais, a morte era um evento compartilhado publicamente, cercado de rituais que ofereciam amparo social aos enlutados. Na modernidade, esse processo tornou-se mais silencioso e individualizado, o que muitas vezes aprofunda a sensação de solidão de quem perde.
A sociologia ajuda a compreender esse aspecto coletivo. Para Marcel Mauss, a morte pode ser entendida como um fato social que mobiliza não apenas emoções individuais, mas valores, normas e vínculos comunitários. Quando esses vínculos falham, o luto tende a ser vivido de forma mais isolada, exigindo do indivíduo uma força emocional que nem sempre ele possui.
Dados empíricos reforçam essa percepção. Pesquisas recentes indicam que pessoas enlutadas que contam com redes de apoio — familiares, amigos ou grupos de acolhimento — apresentam menor risco de desenvolver quadros depressivos prolongados. Em contrapartida, o silêncio social em torno da dor costuma intensificar o sofrimento psicológico.
“Depois que minha mãe morreu, as pessoas ficaram sem saber o que dizer. Algumas se afastaram”, relata Ana*, de 42 anos. “O que mais doeu não foi só a perda, mas a sensação de que eu precisava ser forte o tempo todo.” Depoimentos como esse revelam que o luto não é apenas a ausência de quem partiu, mas também o modo como os vivos respondem — ou não — a essa ausência.
Falar sobre a morte, portanto, não é um exercício mórbido, mas um gesto de humanidade. Reconhecer o luto como parte da experiência humana permite que a dor seja legitimada, compartilhada e, aos poucos, transformada. Afinal, seguir em frente não significa deixar para trás quem morreu, mas aprender a carregar essa presença de outra forma — menos dolorosa, mais serena, porém nunca indiferente.
No fim, a morte de alguém próximo nos ensina, mesmo contra a nossa vontade, que viver é também aprender a perder. E que, ao cuidar do luto, cuidamos não apenas da memória de quem partiu, mas da saúde emocional de quem fica.
*Nome fictício para preservar a identidade.
